Que o muro era alto, isso todos nós
sabíamos.
Três vezes a minha altura, paredes escorregadias pintadas em branco
neve, em seu topo circundavam quatro fios de arame onde se lia “Alta Tensão”.
Neguim, um dos fogueteiros, foi quem disse que as tais calopsitas estariam na
área de serviço aos fundos.
- Já é! – Disse eu levado pelo
espírito de delinquência juvenil. Quantas casas havia roubado navegando por
cima de telhados e muros, arrombando fechaduras e estourando cadeados de todos
os calibres. Envenenando cachorros bravos, rastejando entre frestas de janelas
e grades e carregando nas costas todos os tipos de passarinhos, celulares,
notebook, instrumentos musicais e até roupas de marca. Tinha a habilidade de
trazer ao cliente o que desejava e colocar em circulação aquilo que estava
retido legitimamente em propriedade de alguém.
Os becos qualificavam-me de rato ou gato, dependia da situação, por fim batizaram-me
de Pacu, embora para a minha mãe eu era o eterno Nelinho – êta garoto levado! – assim é que ela justificava as minhas
travessuras à vizinhança.
As calopsitas cantavam todas as
manhãs por dentro dos muros da casa de Dona Amélia, as malandragens tentavam a
todas as maneiras colocar as mãos naquelas aves. Quanto a mim, não importava se
aquela velha conhecia a minha mãe, o que eu queria era não tumultuar a relação
com a gangue do Bafão.
Grito Manso surgiu nos tempos de Brizola
e durante os governos Garotinhos, Benedita e Cabral, fomos transformados numa localidade
coalhada de mulatos “mão-leve”, trambiqueiros e trombadinhas que viviam de
furtos em furtos na Urca e na Lapa - Sô
di menó, dotô. Sô di menó! – Era
a frase que mais se ouvia naqueles cantos. Neguim, por exemplo, tinha dezesseis
anos e era bom de visão, duas características que o qualificava para um
perfeito vigia de lage. Eu tinha quatorze, visão boa e muita jinga nos pés o
que me consagrava um nato ladrãozinho veloz e discreto. Com o tempo ganhei fama,
surrupiando roupas em varais e passarinhos de raça, até que um dia trombei com
Mamute, o chefe da Gangue do Bafão.
- Coé, rato, tá querendo atrair os
cachorras pro pedaço?
- Não, Mamú, só dou fita em outra
área.
Mamute fez naquele dia severas
ameaças a minha vida e a minha família, além de tomar os objetos do meu roubo, deu
pesados tapas na minha cara e exigiu completa obediência as suas ordens dali em
diante.
- Tô no teu comando agora, garoto! Pega o teu beco!
Imediatamente, desci o beco do zulu
em direção a minha casa com o coração saindo pela boca. Uma das coisas
perigosas numa favela é ser confrontado pelo chefe do pedaço, principalmente se
ele o rotula de “rato”, ladrão.
- Pacu, Malú deu ordi pra dá fita na calopsita azul da
velha! – Disse Neguim assim que eu abri o portão.
- Como sei que não é casinha tua,
Neguim?
- Não é, mermão. Ordi é ordi, não posso dá caô!
Enquanto Neguim vigiava a esquina,
escalei o muro até ficar em pé sobre ele. Eu me equilibrava para não encostar
nos tais quatro fios de arame, braços esticados ao ar para corrigir o balançar
do meu corpo, caminhava de pé-em-pé ansiando alcançar o telhado da casa.
Durante a minha acrobacia percebi que o quintal da Dona Amélia não era tão
grande e havia brinquedos espalhados na grama e no meio da terra. Notei que o
cachorro de nome Tutú estava no canil, mas também, naquele sol de quarenta
graus do meio-dia que animal vivente se atreveria a queimar o seu coro? Apenas
um rato como eu pressionado entre a vida e a morte.
- Mais rápido, Pacu! – Gritava
Neguim.
- Vem e faz tu, malandro!
Finalmente coloquei os pés no
telhado que fervia feito chapa de churrasquinho, apoiando pés e mãos andei
sobre o telhado até a parte de trás da casa onde acreditava estar as tais
calopsitas que em silêncio estavam. Olhei por uma das beiradas do telhado, nada
vi. Olhei de outro lado, também nada vi. Voltei pelo caminho que vim até ao pé
do muro e sussurrei ao Neguim que continuava na esquina:
- Neguim! Ô Neguim!
- Fala, Pacú!
- As calopsitas tá aqui não, mermão.
- Ti vira garoto, tá aí sim.
Retornei a beirada do telhado
disposto a descer por detrás da casa. Segurando nos tubos de água desci até o
chão onde apoiei os meus tornozelos. Assim que o fiz as calopsitas gritaram de
susto e medo e entre elas estava a dita calopsita azul que Mamute queria. Ao
abrir o viveiro, saltei no ar buscando a encomendada, agarrei-a pela calda
longa e puxei junto ao meu corpo. – Que beleza de animal! No instante em que
colocava o passarinho na mochila e fechava o viveiro para fazer o caminho de
volta ao muro. Ouvi o portão da garagem abrir, mais que depressa sobre um pé
pulei para cima do telhado e caminhando sobre pés e mãos fui em direção ao muro
quando me gritaram:
- Ei! Ladrãozim! Vou te acertar! – Percebi logo que não era a voz da Dona
Amélia e sim de um homem. Corrí o máximo que pude até o muro quando espiei na
esquina não vi Neguim, foi então que o medo bateu, busquei fugir pelo muro dos
fundos onde ganharia terreno evadindo outra casa e assim dificultaria a
investida daquele sujeito. No momento em que subi no muro dos fundos e me
equilibrei para caminhar até o ponto de descida, senti uma forte pancada no
ouvido de uma abaulada pedra de cascalho, fiquei ébrio pelo choque e despenquei
do alto daquele muro para dentro do terreno vizinho. Uma queda livre, sem
reflexo de proteção, caí feito um mamão que espatifa no chão, um corpo quase
morto ao solo.
- Mô você acertou ele! – ouvi ao longe uma doce voz feminina
lamentar.
Eu olhava aquele seu azul girando lá
no alto, enquanto minha blusa umedecia do sangue que espalhava do colarinho ao
peito, uma dor insuportável tomava conta da minha cabeça, pescoço, costas,
pernas, joelhos e tornozelos. Gritei de dor. Logo muitos se aproximaram de mim,
o portão da residência a qual evadira se abriu e lá estava a Dona Amélia e um
rapaz que julgo ser dono daquela boa mira.
- Meu Deus ele despencou feio! –
Disse a senhora.
- Nossa ele está muito machucado.
- Não toque nele! Temos que chamar a
ambulância.
No meio de toda aquela gentalha vi o
Neguim fazendo sinal de silêncio pra mim, claro, aquele desgraçado quando mais
precisei dele para receber a mochila que carregava, o covarde havia fugido,
agora queria meu silêncio. Mas é claro que ficaria calado, eu temia o Mamute.
Quando a ambulância chegou, eu estava completamente fora de mim disse que
estava atrás de pipas, o que logo foi desmentido pelas testemunhas.
- Maldito ladrãozinho!
- Tem que morrer na cadeia,
vagabundo! – Xingavam-me com terríveis palavrões adjetivando pejorativamente a
minha mãe. Enquanto as enfermeiras mobilizavam cada membro quebrado do meu
corpo. Acho, inclusive, que de tanta dor eu nada mais sentia. Vi, também, o
policial conversando com a Dona Amélia e o rapaz que a acompanhava.
- Vocês terão que me acompanhar,
família – Era as ordens do policial que me olhava desconfiado vendo eu ser
imobilizado na maca.
No fim, o filho da Dona Amélia foi
indiciado por tentativa de homicídio e as minhas custas de saúde - Que o muro
era alto, isso todos sabiam! – foi o que argumentou o advogado da associação do
morro do Grito Manso. E, eu, acabei internado por força da justiça divina que
levara os movimentos das minhas pernas, talvez como paga da esmagada morte que
causei a calopsita azul no momento da queda.
Pra mim, saiu caro demais.

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