A REUNIÃO - Daniel Jr.



Edgar havia me arrastado até aquele porão na rua vitória
– Nando, junte-se a nós, temos muitas ideias! – dizia ele todos os dias desde quando fui contratado pela redação. No começo eu recusei porque ainda que tivéssemos boa convivência no escritório, Edgar era para mim um sujeito um tanto quanto esquisito. Tínhamos ideias sobre a vida semelhantes em muitos pontos como apoiar os amigos da mesma causa ou a necessidade de um novo governo, porém divergíamos quanto ao modo de reação. No fim das contas acabei cedendo ao convite do amigo e integrei-me a aquele grupo secreto.
- Muito bem, amigos! – Enfim pude ver Edgar descendo as escadas do porão. Ele trazia consigo calhamaços de papeis separados em pastas suspensas.
Quando me formei em ciencias sociais fui admitido na redação do jornal como assistente de editor, mesma função de Edgar. Desde então convivia diariamente com ele mais do que com qualquer outra pessoa, pois era de nossa responsabilidade o fechamento da edição e o envio a gráfica. As vezes descambávamos madrugada afora para que as kombis pudessem sair em direção as bancas as três e meia em ponto. Mas como desempenhávamos uma atividade de confiança, isto é, o editor confiava em Edgar, o Edgar em minhas correções e todos nós confiávamos na gráfica que entregaria a edição em perfeitas condições, logo as circunstâncias do trabalho fez de nós amigos.
- Creio que ainda não conhecem o Nando! – Disse Edgar ao apresentar-me a aquele seleto grupo, ao que todos imediatamente me saudáram.
- Nando é quase um irmão pra mim, ele é de extrema confiança! – Me senti lisonjeado com as palavras de Edgar diante daqueles desconhecidos.
O que soou um pouquinho estranho naquele instante foi o fato de Edgar me considerar um irmão. No entanto é verdade que neste período ele conhecia a minha história mais que qualquer um dos meus amigos. Quando vínhamos da redação pelas madrugadas paulistanas geralmente parávamos num bar copo sujo e embebedávamos em cervejas e whiskys barato e falávamos do preço do feijão ao lançamento do satélite russo levantando, ele geralmente dizia entre um copo e outro - queria ser abduzido por uma espaço-nave!
-O quê!? – Questionava atônito o sujeito que já trêbado de álcool.
- Sim, espaço-nave, ver o planeta terra lá do alto.
- Tá bom... tá bom –  Eu ignorava as palavras do bêbado astronauta.
Era assim a nossa relação, confiança mútua ao ponto de confidenciar bobagens e baboseiras da nossa cabeça. Por isso quando me chamou de irmão na frente de todos não assustei, acho que fiquei apenas surpreso.
- Comecemos! – Falava edgar.
Edgar entregou aquelas pastas suspensas carregadas de calhamaços de papel a cada um de nós. Enquanto ele explicava detalhes da reunião anterior a um indivíduo por nome Martin, eu corría os olhos a minha volta observando as paredes, o teto, o chão e as pessoas alí presente. Notei que havia prateleiras repletas de documentos, outras cadeiras vazias, uma mesa de escritório ao canto, sobre a qual também havia pilhas e pilhas de papéis. No canto ao fundo uma bandeira da China – Quem teria a coragem de colocar isso aqui, gente? – Admirei satisfatóriamente com os meus olhos trotiskista.
Quando estava no quinto período da USP entrei para o movimento estudantil onde me envolvi com uma garota de nome Elisa. Devido a minha boa habilidade na escrita Elisa apresentou-me a Edgar que logo viabilizou a minha entrada no jornal. Desde então eu vivia no escritório ora fazendo café, ora auxiliando na correção dos textos e na diagramação, afinal os estagiários eram os braços e pernas da redação. Meu namoro com a Elisa acabou, pois esta foi embora para Brasília se juntar ao movimento da UNB, Edgar vivía preso dentro de um escritório repleto de paginas de jornais do Brasil inteiro e eu mergulhado em atividades braçais durante o resto do meu curso. Nesta época circulava a boca pequena entre os estagiários que toda a redação era stalinista e que apenas Edgar era maoísta declarado.
Mais tarde vim a delongar em conversas calorosas com Edgar sobre as peculiaridades de cada vertente do comunista, esta também era um ponto de divergência entre nós. Talvez a nossa afinidade formou aqui, pois foi a Elisa que me ensinou a ser trotskista – Tudo contra o capitalismo, meu amor! Tudo contra a besta do capital! – ela sempre me dizia. E Edgar, quando o conheci era um saudoso do Araguaia – Aqueles guerrilheiros queriam nos libertar do imperalismo, Nando! – Típico de um maoísta tupiniquim. Eis mais um motivo de minha relutância em participar de uma reunião secreta com Edgar, porque sempre no final tudo termina em luta armada. Ao ouvir isso ele dava altas gargalhadas – Claro, meu amigo, claro! As armas construíram o império americano e por que não contruiríam a nossa sonhada revolução! – por isso eu o achava esquisito.
- Nestas pastas estão as atividades que teremos que executar mais dia menos dia – Orientava Edgar naquele gélido porão. Não que todos tínhamos a mesma função, pois mais tarde descobrí que alí se reunia não apenas burocrátas de redação como eu e Edgar, mas sindicalistas, gente da política e professores. Fiquei sabendo que existia outros grupos semelhante ao nosso em Brasília e em outras partes do país, em alguns casos eram até apadrinhados por grupos ou associações de empresários que queríam o fim do governo militar.
Ao ler aqueles papeis naquela limitada luz de porão sob o piso de uma antiga distribuidora de produtos alimentícios no Santa Ifigênia percebi que as atividades eram de simples execução, nada tão relevante. No meu caso tratava apenas de adaptar semanticamente algumas palavras nos textos jornalísticos, algo que Edgar já me orientava há tempos, e também criar termos e palavras ambíguas que denotem o fato, mas conotem outros sentidos.
- Então é isso, Edgar!? Sem armas!? – Todos me olharam com olhos de condenação como se havia dito algo absurdo aos ouvidos.
- Claro que não, Nando! Nós queremos a democracia, esta sim é nossa causa! – Respondeu Edgar em tom repreensivo. 
Naquela mesma noite, na redação, recebi em minha mesa textos de setoristas onde fiz alterações nos títulos; “Brigas tumultuam 25 de Março”, seguindo as novas orientações mudei para “Tiros e violência na 25 de Março”, e outro que dizia “João Figueiredo pode ser Presidente” alterei para “Mais um Militar pode comandar Brasília”, passei a dizer o fato apontando os defeitos do governo.
Edgar era um gênio, ou quem pensou nisso.

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