Edgar havia me arrastado até aquele
porão na rua vitória
– Nando, junte-se a nós, temos muitas ideias! – dizia ele todos
os dias desde quando fui contratado pela redação. No começo eu recusei porque
ainda que tivéssemos boa convivência no escritório, Edgar era para mim um
sujeito um tanto quanto esquisito. Tínhamos ideias sobre a vida semelhantes em
muitos pontos como apoiar os amigos da mesma causa ou a necessidade de um novo
governo, porém divergíamos quanto ao modo de reação. No fim das contas acabei
cedendo ao convite do amigo e integrei-me a aquele grupo secreto.
- Muito bem, amigos! – Enfim pude
ver Edgar descendo as escadas do porão. Ele trazia consigo calhamaços de papeis
separados em pastas suspensas.
Quando me formei em ciencias sociais
fui admitido na redação do jornal como assistente de editor, mesma função de
Edgar. Desde então convivia diariamente com ele mais do que com qualquer outra
pessoa, pois era de nossa responsabilidade o fechamento da edição e o envio a
gráfica. As vezes descambávamos madrugada afora para que as kombis pudessem
sair em direção as bancas as três e meia em ponto. Mas como desempenhávamos uma
atividade de confiança, isto é, o editor confiava em Edgar, o Edgar em minhas
correções e todos nós confiávamos na gráfica que entregaria a edição em
perfeitas condições, logo as circunstâncias do trabalho fez de nós amigos.
- Creio que ainda não conhecem o
Nando! – Disse Edgar ao apresentar-me a aquele seleto grupo, ao que todos imediatamente
me saudáram.
- Nando é quase um irmão pra mim,
ele é de extrema confiança! – Me senti lisonjeado com as palavras de Edgar
diante daqueles desconhecidos.
O que soou um pouquinho estranho
naquele instante foi o fato de Edgar me considerar um irmão. No entanto é
verdade que neste período ele conhecia a minha história mais que qualquer um
dos meus amigos. Quando vínhamos da redação pelas madrugadas paulistanas geralmente
parávamos num bar copo sujo e embebedávamos em cervejas e whiskys barato e
falávamos do preço do feijão ao lançamento do satélite russo levantando, ele
geralmente dizia entre um copo e outro - queria ser abduzido por uma
espaço-nave!
-O quê!? – Questionava atônito o
sujeito que já trêbado de álcool.
- Sim, espaço-nave, ver o planeta
terra lá do alto.
- Tá bom... tá bom – Eu ignorava as palavras do bêbado astronauta.
Era assim a nossa relação, confiança
mútua ao ponto de confidenciar bobagens e baboseiras da nossa cabeça. Por isso
quando me chamou de irmão na frente de todos não assustei, acho que fiquei
apenas surpreso.
- Comecemos! – Falava edgar.
Edgar entregou aquelas pastas
suspensas carregadas de calhamaços de papel a cada um de nós. Enquanto ele
explicava detalhes da reunião anterior a um indivíduo por nome Martin, eu
corría os olhos a minha volta observando as paredes, o teto, o chão e as
pessoas alí presente. Notei que havia prateleiras repletas de documentos,
outras cadeiras vazias, uma mesa de escritório ao canto, sobre a qual também
havia pilhas e pilhas de papéis. No canto ao fundo uma bandeira da China – Quem
teria a coragem de colocar isso aqui, gente? – Admirei satisfatóriamente com os
meus olhos trotiskista.
Quando estava no quinto período da
USP entrei para o movimento estudantil onde me envolvi com uma garota de nome
Elisa. Devido a minha boa habilidade na escrita Elisa apresentou-me a Edgar que
logo viabilizou a minha entrada no jornal. Desde então eu vivia no escritório
ora fazendo café, ora auxiliando na correção dos textos e na diagramação,
afinal os estagiários eram os braços e pernas da redação. Meu namoro com a
Elisa acabou, pois esta foi embora para Brasília se juntar ao movimento da UNB,
Edgar vivía preso dentro de um escritório repleto de paginas de jornais do
Brasil inteiro e eu mergulhado em atividades braçais durante o resto do meu
curso. Nesta época circulava a boca pequena entre os estagiários que toda a
redação era stalinista e que apenas Edgar era maoísta declarado.
Mais tarde vim a delongar em
conversas calorosas com Edgar sobre as peculiaridades de cada vertente do
comunista, esta também era um ponto de divergência entre nós. Talvez a nossa
afinidade formou aqui, pois foi a Elisa que me ensinou a ser trotskista – Tudo
contra o capitalismo, meu amor! Tudo contra a besta do capital! – ela sempre me
dizia. E Edgar, quando o conheci era um saudoso do Araguaia – Aqueles
guerrilheiros queriam nos libertar do imperalismo, Nando! – Típico de um
maoísta tupiniquim. Eis mais um motivo de minha relutância em participar de uma
reunião secreta com Edgar, porque sempre no final tudo termina em luta armada.
Ao ouvir isso ele dava altas gargalhadas – Claro, meu amigo, claro! As armas
construíram o império americano e por que não contruiríam a nossa sonhada
revolução! – por isso eu o achava esquisito.
- Nestas pastas estão as atividades
que teremos que executar mais dia menos dia – Orientava Edgar naquele gélido
porão. Não que todos tínhamos a mesma função, pois mais tarde descobrí que alí
se reunia não apenas burocrátas de redação como eu e Edgar, mas sindicalistas,
gente da política e professores. Fiquei sabendo que existia outros grupos
semelhante ao nosso em Brasília e em outras partes do país, em alguns casos
eram até apadrinhados por grupos ou associações de empresários que queríam o
fim do governo militar.
Ao ler aqueles papeis naquela
limitada luz de porão sob o piso de uma antiga distribuidora de produtos
alimentícios no Santa Ifigênia percebi que as atividades eram de simples execução,
nada tão relevante. No meu caso tratava apenas de adaptar semanticamente
algumas palavras nos textos jornalísticos, algo que Edgar já me orientava há
tempos, e também criar termos e palavras ambíguas que denotem o fato, mas
conotem outros sentidos.
- Então é isso, Edgar!? Sem armas!?
– Todos me olharam com olhos de condenação como se havia dito algo absurdo aos
ouvidos.
- Claro que não, Nando! Nós queremos
a democracia, esta sim é nossa causa! – Respondeu Edgar em tom
repreensivo.
Naquela mesma noite, na redação,
recebi em minha mesa textos de setoristas onde fiz alterações nos títulos;
“Brigas tumultuam 25 de Março”, seguindo as novas orientações mudei para “Tiros
e violência na 25 de Março”, e outro que dizia “João Figueiredo pode ser
Presidente” alterei para “Mais um Militar pode comandar Brasília”, passei a
dizer o fato apontando os defeitos do governo.
Edgar era um gênio, ou quem pensou
nisso.

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